A visita do vice-governador do Maranhão, Felipe Camarão (PT), a Codó no último sábado (28), rendeu mais do que apenas fotos com lideranças do Partido dos Trabalhadores. Acompanhado do prefeito Chiquinho do PT, Camarão participou de um encontro político-religioso que vem dando o que falar nos bastidores: uma reunião com pastores e obreiros da Assembleia de Deus Missão — a mesma convenção que tem como expoente no estado a deputada Mical Damasceno (PSD), com quem o petista se envolveu em um escândalo recente.

O encontro, articulado pelo secretário de Juventude Valdeci Calixto, a mando do prefeito Chiquinho do PT e do deputado estadual Francisco Nagib, gerou estranheza pelo perfil das lideranças evangélicas presentes. A maioria dos participantes tem histórico de alinhamento com Mical Damasceno, que recentemente rompeu com Camarão após o vazamento de mensagens ofensivas e misóginas atribuídas ao vice-governador. As mensagens, periciadas e enviadas do número pessoal de Camarão, continham frases como “não f** essa doida”, em referência direta à parlamentar.

A tentativa de aproximação agora, tão logo após a crise, soa oportunista e tem sido interpretada como um movimento desesperado para estancar a sangria política causada pela repercussão negativa entre evangélicos. E mais: como uma manobra coordenada para ocupar espaço no território de influência de Mical Damasceno em Codó.

Política dentro dos templos e cargos como moeda de troca

O uso das igrejas como palco político não parou por aí. Segundo denúncias, o secretário Valdeci Calixto vem fazendo campanha dentro de congregações da Assembleia de Deus, oferecendo cargos em troca de apoio. Um dos casos mais comentados é o da nomeação de Fabiana, esposa do obreiro Ely dos Santos — até então um dos mais ativos apoiadores de Mical no município.

Após a nomeação, Ely passou a agir como espécie de “anfitrião político” do grupo de Nagib nas programações da igreja presidida pelo pastor José Gomes. De acordo com relatos, ele tem acompanhado Valdeci em cultos, reuniões e eventos religiosos, escancarando a instrumentalização da fé para fins eleitorais.

A movimentação tem gerado desconforto dentro da igreja e provocado indignação entre membros que enxergam na aliança entre Camarão e os políticos locais uma tentativa de usar a religião como ferramenta para recuperar imagem e capital político — às custas de promessas, cargos e influência.

Rumo a 2026 com a Bíblia em uma mão e o cargo na outra

A articulação deixa claro que o grupo de Chiquinho do PT e Nagib quer avançar sobre o eleitorado evangélico, que sempre foi reduto fiel de Mical Damasceno. O encontro com Felipe Camarão em Codó parece fazer parte de uma estratégia maior: “limpar a barra” do vice-governador com as bases cristãs e, ao mesmo tempo, enfraquecer uma das maiores lideranças conservadoras do estado.

Se dará certo ou não, só o tempo — e as urnas — dirão. Mas, por ora, o que se vê é o velho uso da máquina pública para conquistar apoios, ainda que para isso seja preciso entrar pelos fundos dos templos com promessas em troca de favores.