A advogada Talita Sereno e o perito médico da Polícia Civil do Piauí, Ivanenko Ullianov Santos Batista, ingressaram com uma queixa-crime contra o jornalista Marco Silva, pedindo a remoção das reportagens já publicadas, proibição de novas matérias sobre o caso e indenização por danos morais e patrimoniais. O processo surge após o jornalista divulgar trechos do inquérito e documentos oficiais da Polícia Civil referentes à confusão em Codó (MA).

Nas publicações, Marco Silva revelou que o inquérito indiciou Ivanenko por roubo e ameaça, apontando que o perito teria sacado uma arma, ameaçado vítimas e tomado documentos durante o episódio — afirmações sustentadas por relatório policial. Os dados divulgados não são especulação, mas elementos constantes no procedimento investigativo.

O ponto crítico, porém, está na natureza do pedido judicial. Ao solicitar que reportagens sejam apagadas e que o jornalista seja impedido de citar o caso novamente, Talita e Ivanenko buscam — na prática — restringir o livre exercício da imprensa. Se concedida, a medida configuraria censura prévia, mecanismo repudiado pela Constituição e perigoso para o jornalismo independente.

Não se trata de impedir responsabilização caso haja calúnia ou informação falsa — o que não é o caso, já que as reportagens se baseiam em documentos oficiais. Trata-se de barrar a continuidade da cobertura pública de um assunto de interesse social. E quando reportagens com provas, carimbos e números de protocolo geram processos destinados a silenciar quem as publicou, abre-se um precedente que ameaça qualquer jornalista que ousar revelar o que incomoda.

Marco Silva cumpriu o dever fundamental da imprensa: informar. Denunciou, com base em papéis oficiais, uma versão que não se sustenta diante do inquérito. Processá-lo não é apenas uma reação jurídica — é um recado. E o recado é perigoso: “cuidado ao expor o que preferimos esconder”.

O caso agora está nas mãos da Justiça. Mas também está diante da sociedade, que precisa compreender o que está em jogo. Hoje o alvo é um jornalista. Amanhã pode ser qualquer pessoa que divulgue uma verdade incômoda.

Porque quando a imprensa é silenciada, não se cala apenas um profissional — cala-se o direito do público de saber.