Ativos de renda variável podem ganhar relevância diante do cenário macroeconômico

A estratégia de alocação de 60% dos recursos para o investimento em ações e de 40% para renda fixa se manteve predominante entre as recomendações para investidores de perfil moderado que buscam equilibrar risco e retorno nas últimas décadas. No entanto, essa estrutura vem se transformando em função das mudanças no cenário macroeconômico.

Na prática, investidores com perfil moderado passaram a explorar outros modelos de carteiras de investimentos, adaptados à nova realidade econômica, como destaca o planejador financeiro da Associação Brasileira de Planejamento Financeiro, Edson Cerqueira, em entrevista à imprensa. Apesar disso, o equilíbrio entre risco e retorno segue como prioridade na hora de definir os produtos para investir.

Pesquisa divulgada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) revela que a renda fixa foi o segmento que mais cresceu na carteira de investidores durante o primeiro semestre de 2025.

Já a renda variável apresentou recuo no mesmo período. Os ativos híbridos, como fundos multimercado, fundos de índice (ETFs), fundos imobiliários (FIIs) e certificados de operações estruturadas (COEs) apresentaram queda, enquanto o segmento de previdência permaneceu estável

O perfil moderado de investidor traz como característica o equilíbrio entre segurança e rentabilidade, como descreve a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). 

Disposto a correr riscos calculados e volatilidade na carteira, o investidor moderado tem recursos não só para investir, mas para aproveitar outros serviços premium, como solicitar cartão Black e assessoria de investimento personalizada.

Além do modelo 60/40 

Na década de 1950, Harry Markowitz criou a Teoria Moderna do Portfólio, com a  divisão 60/40. A ideia era ajudar investidores a potencializar ganhos enquanto reduzem riscos, principal característica do perfil do investidor moderado, como informa a Anbima.

Porém, o mundo mudou após a pandemia de Covid-19, quando países desenvolvidos passaram a conviver com taxas de juros mais altas e inflação persistente. A correlação entre renda fixa e ações também foi alterada, fazendo com que a divisão 60/40 tivesse desempenho negativo.

Estudo da Kohlberg Kravis Roberts (KKR), referente ao período entre 2022 e 2025, mostra que, pela primeira vez em 150 anos, a renda fixa não se comportou conforme previsto. O que se vê é o equilíbrio entre a busca por ganhos e oportunidades e a gestão de riscos.

Os modelos de carteira de investimento variam de acordo com o perfil de risco: conservador, moderado e arrojado, e com os objetivos de cada um deles. De forma geral, a orientação é buscar diversificação, buscando uma composição que atenda aos interesses do investidor. 

“É fundamental que a carteira de investimentos seja compatível com o apetite ao risco e com a capacidade de riscos, as necessidades de fluxo de caixa e o momento de vida de cada um. Nível de risco, de classe de ativos, de necessidade de e liquidez. Não existe uma única classe perfeita. De maneira geral, a diversificação é muito bem-vinda”, orienta o consultor em investimentos Felipe Spritzer. 

Entre os modelos de carteiras de investimento disponíveis está a carteira de renda fixa, que tem como foco previsibilidade e segurança ao alocar recursos em títulos públicos, CDBs, LCIs e LCAs. Outra opção é a carteira de dividendos, que inclui ações de empresas consolidadas que pagam proventos recorrentes. Há, ainda, a carteira de ações, focada na valorização de capital. Já a carteira de fundos de investimentos imobiliários (FIIs) é voltada para a geração de renda mensal.

Há, ainda, a carteira de small caps, que engloba ações de empresas de menor capitalização, com alto potencial de crescimento e maior volatilidade. A carteira focada em diversificar geograficamente é a carteira internacional (BDRs).

Dessa forma, os investidores não veem restritos a um único modelo de carteira de investimentos, buscando assessorias personalizadas e carteiras recomendadas por especialistas.

Cenário macroeconômico

De acordo com projeção compartilhada em relatório , a equipe econômica do C6 Bank estima que os juros podem recuar para cerca de 12,5% até o fim de 2026, o que deve influenciar a dinâmica do mercado. Assim, com a possibilidade de queda da Selic ainda no primeiro semestre, o capital recuado pode ser um incentivo quanto aos investimentos de maior risco. 

Nesse panorama, ativos de renda variável podem ganhar relevância. Um deles são as ações, que tendem a apresentar maior volatilidade no curto prazo. Além disso, os FIIs, que distribuem rendimentos conforme os resultados da carteira, são uma opção. 

Já os BDRs permitem investimento de forma indireta em empresas do exterior por meio da bolsa brasileira. Os ETFs, negociados em bolsa e que replicam índices de mercado, permitem reunir diferentes ativos em um único produto, representando a diversificação e a redução de riscos específicos.

De acordo com o planejador financeiro Edson Cerqueira, a Bolsa tende a se beneficiar da redução da Selic e da retomada gradual do consumo. Setores ligados à infraestrutura, energia e consumo interno devem ganhar destaque. Com isso, a recomendação é não deixar de investir na Bolsa, que acumulou alta de mais de 30% em 2025. 

A Anbima recomenda estudar as características do produto financeiro, incluindo liquidez, segurança e rentabilidade. “A partir disso, é possível analisar se há compatibilidade do investimento com o objetivo que motivou a pessoa a investir e a disposição que ela possui para assumir riscos.”