Menos de uma semana após impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, o governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, deu mais um passo na escalada de tensão comercial com o Brasil. Nesta terça-feira (15), o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) anunciou a abertura de uma investigação oficial contra o país por supostas “práticas comerciais desleais e discriminatórias”.

A medida, considerada uma das mais agressivas do arsenal comercial norte-americano, se baseia em denúncias de que o Brasil estaria impondo barreiras tarifárias e não tarifárias que prejudicam empresas e produtos americanos. Entre os focos da investigação estão o comércio digital, o etanol, a proteção da propriedade intelectual e o desmatamento ilegal na Amazônia.

Segundo o embaixador do comércio dos EUA, Jamieson Greer, a iniciativa é fruto de uma ordem direta de Trump. “O Brasil tem adotado práticas que favorecem alguns parceiros comerciais e colocam os Estados Unidos em desvantagem. Além disso, há retaliações veladas contra empresas americanas de tecnologia que se recusam a censurar discursos políticos”, afirmou Greer em coletiva.

A ofensiva diplomática ocorre em um contexto de alta tensão jurídica no Brasil, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro enfrenta múltiplas investigações e já se tornou réu no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado e organização criminosa. Para Trump, que voltou a defender publicamente o aliado brasileiro, trata-se de uma “caça às bruxas”.

“Estamos fazendo isso porque eu posso fazer. Ninguém mais seria capaz”, declarou o ex-presidente americano em tom desafiador, durante uma conversa com a imprensa na Casa Branca. “Bolsonaro é um bom homem. Está sendo perseguido injustamente. Isso não é justiça, é perseguição política.”

O jornal The New York Times classificou a medida como um claro uso político das ferramentas comerciais dos EUA e alertou para o risco de agravamento nas relações diplomáticas com o Brasil. A publicação destaca que novas sanções podem ser anunciadas, o que afetaria diretamente setores estratégicos da economia brasileira, especialmente o agronegócio e a indústria de biocombustíveis.

Nos bastidores, analistas internacionais enxergam a ofensiva de Trump como uma tentativa de interferência indireta nos rumos políticos do Brasil, com olhos voltados tanto para a própria eleição nos EUA quanto para fortalecer laços com a base bolsonarista no país sul-americano.

A investigação, que poderá durar meses, abre um novo capítulo nas já conturbadas relações Brasil-EUA e coloca o governo brasileiro em posição delicada, num momento em que busca atrair investimentos e reforçar parcerias estratégicas no cenário internacional. Enquanto isso, cresce o debate sobre os limites entre diplomacia, comércio e ideologia — e sobre o preço que o Brasil poderá pagar por essa mistura explosiva.