A prisão de Nicolás Maduro, capturado em Caracas por forças de elite dos Estados Unidos e transferido sob custódia para Nova York no último fim de semana, não abalou apenas o cenário político internacional. O episódio também resgatou memórias de um momento simbólico da política recente do Maranhão: a visita oficial do então presidente venezuelano Hugo Chávez a São Luís, em março de 2008, acompanhado por aquele que viria a se tornar seu sucessor.

Na quinta-feira 27 de março de 2008, o Palácio dos Leões viveu um dia atípico. O então governador Jackson Lago (PDT) recebeu Chávez em uma agenda carregada de discursos sobre “integração energética e social” entre Brasil e Venezuela. Entre os integrantes mais influentes da comitiva venezuelana estava Nicolás Maduro, à época ministro das Relações Exteriores, atuando nos bastidores diplomáticos da visita.

Promessas e protocolos

O encontro foi marcado pela assinatura de protocolos de intenções que prometiam impactos profundos na economia e no tecido social maranhense. O principal anúncio foi a parceria entre Petrobras e a estatal venezuelana PDVSA para a instalação da Refinaria Premium I, em Bacabeira. O projeto, tratado como estratégico para o desenvolvimento do estado, jamais se concretizou conforme o planejado.

Além da área energética, foram firmados acordos de cooperação social, incluindo programas de erradicação do analfabetismo com o método cubano “Sim, eu posso”, iniciativas voltadas à agricultura familiar e parcerias na área da saúde. Politicamente pressionado, Jackson Lago utilizou a visita para reforçar a identidade de seu governo, em um movimento que adversários classificaram como uma espécie de “neo-balaiada” no cenário local.

Dos Leões ao Brooklyn

Enquanto Chávez dominava os holofotes com seu estilo retórico e expansivo, Maduro permanecia em segundo plano, cuidando da articulação diplomática e logística da viagem. À época, poucos imaginavam que aquele chanceler discreto se tornaria, anos depois, o homem mais poderoso da Venezuela — e, agora, um dos mais contestados do continente.

Dezessete anos depois, o contraste é brutal. Preso no sábado, 3 de janeiro de 2026, em uma operação militar autorizada pelo presidente norte-americano Donald Trump, Maduro passou suas primeiras noites detido no Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn. Ele aguarda julgamento sob acusações graves, entre elas narcoterrorismo e liderança do chamado “Cartel de Los Soles”.

A visita de 2008, celebrada como o prenúncio de uma “nova era de desenvolvimento” para o Maranhão, hoje é lembrada como o retrato de um período marcado por ambiciosos projetos de integração sul-americana que, no estado, deixaram mais discursos e promessas do que obras concretas — e cujo principal herdeiro político agora enfrenta a Justiça dos Estados Unidos.

As informações são do jornalista Gilberto Léda