Por Rodrigo Gazola, CEO da ADDEE

Durante muito tempo, empresas especializadas em serviços gerenciados de TI cresceram resolvendo problemas de infraestrutura. Monitoravam servidores, mantinham redes funcionando, prestavam suporte aos usuários e garantiam a disponibilidade dos ambientes tecnológicos. A segurança da informação fazia parte desse pacote, mas ocupava uma posição secundária. Hoje, essa lógica mudou completamente. A cibersegurança deixou de ser apenas mais um serviço para se tornar um dos principais fatores de crescimento do setor e um diferencial competitivo para quem presta serviços de tecnologia.

Essa transformação aparece de forma clara no MSP Horizons Report 2025, estudo elaborado pela N-able em parceria com a Canalys. O levantamento mostra que 90% dos provedores de serviços gerenciados acreditam que a receita proveniente de soluções de segurança continuará crescendo nos próximos três anos. Entre as prioridades de investimento aparecem proteção de endpoints, serviços gerenciados de detecção e resposta (MDR), backup, recuperação de desastres, conformidade regulatória e inteligência artificial.

Embora o estudo tenha abrangência global, suas conclusões fazem ainda mais sentido quando observamos o mercado brasileiro. O país está entre os principais alvos de ataques cibernéticos do mundo e, ao mesmo tempo, vive uma rápida digitalização das pequenas e médias empresas. Muitas delas migraram operações para a nuvem, adotaram ferramentas colaborativas e passaram a depender cada vez mais da tecnologia, mas sem desenvolver internamente estruturas robustas de segurança. Isso faz com que os MSPs assumam um papel que vai muito além do suporte técnico: tornam-se responsáveis por garantir a continuidade das operações dos clientes.

O relatório também evidencia uma mudança importante no modelo de negócios dessas empresas. Em vez de competir apenas pela capacidade de resolver chamados ou administrar infraestrutura, os provedores mais maduros estão ampliando sua atuação em áreas de maior valor agregado, como governança, compliance, automação, consultoria e resiliência cibernética. Em outras palavras, o mercado está migrando de um modelo operacional para um modelo consultivo.

Essa mudança é especialmente relevante no Brasil. Nos últimos anos, a entrada em vigor da LGPD, o aumento das exigências regulatórias em diferentes setores e a crescente sofisticação dos ataques fizeram com que a segurança deixasse de ser um tema exclusivamente técnico. Hoje ela faz parte das decisões estratégicas das empresas. A preocupação já não é apenas evitar invasões, mas garantir que o negócio continue funcionando caso um incidente aconteça.

É justamente nesse ponto que surge o conceito de resiliência cibernética. Enquanto a segurança tradicional concentra esforços em impedir ataques, a resiliência parte do princípio de que nenhum ambiente é totalmente imune. O objetivo passa a ser detectar rapidamente uma ameaça, responder de forma eficiente e recuperar sistemas e dados no menor tempo possível, reduzindo impactos financeiros e operacionais.

Essa visão ajuda a explicar por que soluções de backup deixaram de ser tratadas apenas como uma obrigação técnica. O relatório mostra que serviços de proteção de aplicações SaaS, recuperação de desastres e automação baseada em inteligência artificial estão entre as prioridades de investimento dos MSPs para os próximos anos. Afinal, recuperar rapidamente um ambiente pode ser tão importante quanto impedir que ele seja comprometido.

Outro dado que chama atenção é a velocidade com que a inteligência artificial vem sendo incorporada ao dia a dia dessas empresas. Apenas uma pequena parcela dos entrevistados afirma ainda não utilizar IA generativa, enquanto a maioria já emprega a tecnologia para automatizar processos, organizar documentação, agilizar o atendimento, gerar conhecimento técnico e aumentar a eficiência operacional.
No Brasil, ainda existe a percepção de que a inteligência artificial substituirá profissionais de TI. Na prática, o cenário aponta para outra direção. Em um mercado que sofre com a escassez de mão de obra especializada, a IA tende a ampliar a produtividade das equipes, automatizando tarefas repetitivas para que os profissionais possam dedicar mais tempo à gestão de riscos, arquitetura de soluções, relacionamento com clientes e tomada de decisões estratégicas.

O estudo também apresenta um conceito interessante: a evolução para o chamado MSP 3.0. Trata-se de um modelo em que o crescimento deixa de depender exclusivamente da venda de horas técnicas ou da gestão da infraestrutura dos clientes. Os provedores passam a construir diferenciais baseados em especialização, automação, inteligência de dados e serviços consultivos.

Essa transformação já começa a aparecer no mercado brasileiro. Cada vez mais empresas deixam de buscar apenas um fornecedor capaz de resolver problemas quando eles surgem. O que elas procuram é um parceiro que ajude a reduzir riscos, atender exigências regulatórias, manter ambientes disponíveis e garantir previsibilidade para o negócio. O suporte continua importante, mas deixou de ser suficiente para diferenciar um MSP.

Outro movimento destacado pelo relatório é o crescimento dos serviços co-gerenciados. Em vez de substituir completamente as equipes internas dos clientes, os provedores passam a atuar de forma complementar, oferecendo competências especializadas em segurança, monitoramento e conformidade. Essa tendência faz bastante sentido para empresas brasileiras de médio porte, que normalmente possuem equipes enxutas, mas enfrentam desafios tecnológicos comparáveis aos das grandes organizações.

O levantamento ainda aponta para uma tendência de consolidação do mercado. A maior parte dos MSPs entrevistados afirma considerar fusões, aquisições ou parcerias estratégicas como forma de ampliar competências e ganhar escala. Embora esse movimento possa ocorrer em ritmos diferentes no Brasil, a direção parece inevitável. À medida que os clientes exigem serviços cada vez mais sofisticados, torna-se difícil para uma única empresa dominar todas as competências necessárias. O fortalecimento de ecossistemas de parceiros tende a ser um caminho natural para atender demandas envolvendo segurança, nuvem, inteligência artificial, backup, compliance e recuperação de desastres.

O principal recado do MSP Horizons Report é que o futuro do setor será definido menos pela capacidade de administrar infraestrutura e mais pela habilidade de proteger negócios. Em um ambiente em que ataques são inevitáveis, regulamentações se tornam mais rigorosas e a transformação digital continua acelerando, os provedores que conseguirem entregar resiliência estarão mais preparados para assumir uma posição estratégica dentro das empresas de seus clientes. É essa mudança de papel que deverá definir os líderes do mercado nos próximos anos.

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